CAVALGADA

Escuta o galope certeiro dos dias
saltando as roxas barreiras da aurora.
 Já passaram azuis e brancos:
cinzentos, negros, dourados passaram.
Nós, entretidos pela terra,
não levantamos quase nunca os olhos. 

E eles iam de estrela a estrela,
asas, crinas e caudas agitando.
 Todos belos, e alguns sinistros,
com centelhas de sangue pelos cascos.
Se alguém lhes suplicasse: “Parem!”
não parariam – que invisível látego
 ao flanco impôs-lhes ritmo certo.
Se por acaso alguém dissesse: “Voem!
Mais depressa e para mais longe!”
– veria o que é, no céu, a voz humana...

Escuta o galope sem pausa
da cavalgada que vai para oeste.
Não suspires pelo que existe
nesses caminhos do sol e da lua.
Semeia, colhe, perde, canta,
que a cavalgada leva seu destino.

Ferraduras ígneas virão
procurar onde estás, na hora que é tua.
Entre essas patas de aço e nuvem,
estão presos teus campos e teus mares.

Irás ao céu num selim de ouro,
sem saberes quem pôs teu pé no estribo.
Rodarás entre a poeira e Sírius,
com esses ginetes sem voz e sem sono,
até vir o mais poderoso
que esmague a rosa guardada em teu peito.

Depois, continuarão saltando, mas tão longe
que não perturbarão tuas pálpebras soterradas.

Autor: Cecília Meireles, Mar absoluto. In: Obra poética, 1972, p. 250-251

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